As raízes nutrem - por Nessa Medeiros

Com a imagem de um índio no teaser do Festival Universo Paralelo, e o tema “Ancestralidade” fica impossível não ligar o tema ao atual projeto “O Futuro é Ancestral”, do Instituto Alok em conjunto com a ONU.

Mas não pensem que essa ligação é de agora. Desde que conheço o festival, sempre via representantes dos povos indígenas circulando, e ficava me questionando se eram mesmo "índios" ou se eram pessoas vestidas de índio. Eu sei, eu sei. Que pensamento mais idiota. Infelizmente, há quem acredite que isso é uma fantasia carnavalesca e eu era uma delas.

Com o passar dos anos, e me inteirando mais sobre o festival, descobri que os índios são convidados pela organização todos os anos, para se apresentarem no festival, compartilhando suas músicas, danças, rituais e cultura, trazendo uma gostosa conexão com a natureza, e quem sabe, trazer aos frequentadores do festival, um olhar mais humano e menos “divertido ou perverso” para esses povos tão importantes para nosso Brasil e para o mundo.

Desconstruir conceitos, crenças e narrativas negativas sobre os povos indígenas, está intrínseco no festival. Talvez vocês não saibam (e eu também não sabia), mas em 2003/2004, o primeiro festival acontecia nas praias do Pratigi, e o Dj Swarup começou seu set com a música "Índio". Eu não estava lá, mas quem estava conta que foi mágico. Fazia um sol escaldante, e enquanto os índios dançavam, uma chuva refrescante caiu sobre os navegantes. Como não sentir magia vivendo algo assim? Desde então, os Índios tem seu espaço cativo no Circulou e por todo o festival. Os povos originários sempre tiveram seu trono no festival, e enfim esse ano, estampam a marca do evento e todas as peças de divulgação.


Além deles, temos os reis e rainhas da festa: os disc jockey. O Dj é quem manipula os sons gerando uma melodia eletrônica que dá ao ouvinte uma carga energética tão boa ao ponto de não conseguir ficar parado e sentir apenas uma vontade: dançar! Se balançar! Mexer os pezinhos, as mãos ou até mesmo apenas a cabeça. Essa energia é única e intransferível, cada um sente de um jeito. Em cada um a música toca de um jeito. Tem gente que dança pulando. Tem gente que dança sem sair do chão. Tem gente que dança pisando cacau, e tem gente que dança sentado. Gente que dança de olhos fechados, e gente que nem fecha os olhos de tanta eletricidade no corpo. A música tem esse poder!

DJ Swarup (Juarez Petrillo).


Estar no Universo Paralelo, é viver um universo paralelo. Já sentiu como se você tivesse controle sobre suas vontades, e que suas escolhas alterassem seus sentidos e todos eles ficassem totalmente apurados de modo que você pudesse ouvir melhor, ver melhor, sentir melhor? Já experimentou estar em transe, mas de forma consciente? Estar num lugar onde todas as pessoas estão felizes e naquele momento não exista dor, nem miséria, nem inveja, nem tristeza e todos os sentimentos ruins do mundo ficam do lado de fora e que apenas a música e a arte fosse a propulsora dos seus dias? Você consegue imaginar um lugar onde milhares de pessoas estão na mesma vibração, e onde uma só batida pode fazer com que o mundo seja outro onde as pessoas se gostam e se divertem como nunca?



Falando assim, para quem não conhece, deve parecer esquisito, ou surreal. Mas quem já viveu, sabe bem do que estou falando. Não há um ser vivo que eu conheça que não tenha se sentido modificado por vivenciar uma experiência como o Universo Paralelo. Não sei dizer se é a música, a energia das pessoas, ou a certeza de estar longe da babilônia, longe da realidade e da negatividade do mundo. E antes que digam que são as drogas e blá blá blá, quero dar meu testemunho: não uso lisérgicos, nem sei qual vibe eles proporcionam, e ainda assim eu sou uma pessoa muito mais evoluída como ser humano, desde que conheci e vivenciei o Universo Paralelo. Para quem não queira ficar apenas com meu testemunho, o perfil @_oclb no Instagram, divulgou um resumo sobre uma pesquisa realizada por Daniel Yudkin onde ele afirma que 63,2% das pessoas disseram ter tido experiência que as deixaram mais generosas, empáticas e abertas ao novo. A pesquisa ainda revelou que esse efeito pós festival pode durar até 6 meses. Ainda segundo o estudo, frequentadores de festivais de música se sentem transformados, mais conectados a humanidade e propensos a ajudar o próximo.

O festival Universo Paralello que acontece há 22 anos, segue para sua 16° edição. 13 delas acontecem nas praias do Pratigi, em Ituberá. Da primeira edição à décima sexta, muita coisa mudou, houverem perdas mas também muita evolução. Mas sem dúvida a essência continua a mesma. No documentário Universo Paralelo #15 , disponível no Youtube (clique aqui para assistir), o Alok diz que o UP é a alma do Juarez, e preciso dizer: Juarez você tem uma alma magnifica. O Bhaskar, nesse mesmo documentário, sintetizou na fala dele um pensamento meu: “Não tem jeito fácil de chegar aqui, então quem ta aqui, realmente quis. E por ele ta aqui a anergia dele é diferente já. Já é uma pessoa que vem com o coração aberto para viver essa experiência. Acho que isso é uma das coisas mais especiais que rolam aqui.” Quem leu o post anterior vai lembrar que falei que além de tudo de bom, o ser humano que frequenta o festival é algo indescritível. Gente da melhor qualidade.

Main floor, Up Club, 303, Tropikalien, Circulou, Chillout, Palco Paralelo, Pista Pirata, espaço de cura, praia, e gente, muita gente. Você deve se programar para não perder nada do que queira ver, mas já adianto, vai ser bem difícil conseguir. Não é uma negatividade, é um fato. Você se programa e quer muito ir ver aquela apresentação ou aquele Dj, mas ai você conhece alguém, a sintonia flui, e vocês já vão curtir outra coisa juntos. Ou então você vai numa pista ver seu Dj preferido, e dai ele termina o set, e um outro começa e quando você percebe já está aplaudindo o set da Djane que entrou depois dele e já perdeu aquela apresentação, lá na outra pista, que queria ver depois do seu Dj favorito. UP é isso. Eles fazem essa coisa toda de forma que ficamos presos, mas felizes. Acomodados mas dançantes.

Passar mais um Reveillon nas areias do Pratigi, já é uma tradição para muitas pessoas. Desde as que vão para trabalhar, curtir, ou trabalhar e curtir. Para algumas outras é algo novo. Com isso, é muito comum ver pessoas em grupos de redes sociais pedindo dicas, experiências, o que é imprescindível e o que pode ser deixado pra trás. Conforme a semântica da ancestralidade, é importante validar o que os marujos experientes tem a dizer. Isso ajudará na construção do caminho que tem que trilhar para aproveitar ao máximo essa vivência e fazer a sua leitura posterior que com certeza ressignificará sua existência.

Na ancestralidade, as raízes tem total carga de nutrientes essenciais para nosso crescimento e evolução. As raízes nutrem a gente. A ancestralidade nutre nossas raízes. Há sabedoria no passado. E experienciar o presente, é formar um futuro melhor.

Prontos para mais uma vivência para guardar na memória?

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